Olá!

Bem vindos ao diário de uma brasileira em Timor-Leste - uma meia-ilha no outro lado do planeta que a todos encanta com a magia do canto de uma sereia.
Ou seria o canto de um crocodilo? Bem... em se tratando de Timor, lafaek sira bele hananu... :-))

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Kuala Lumpur



Mais um aeroporto... Nessa viagem já passei pelos aeroportos de Dili, Bali, Jakarta, Singapura, Saigon, Hanoi, Luang Prabang, Siem Reap, e estou agora em Kuala Lumpur... de novo...

Tive uma passagem muito rápida, mas muito significativa por Kuala Lumpur em junho. Neste ano da graça – e das viagens – de 2010, viajei três vezes para fora de Timor-Leste (a primeira não conta, pois hospital, ainda que em Bali, não é viagem turística). Na primeira, em abril, tive o encontro com os animais. Cavalguei elefantes e camelos, abracei tigres e orangotangos e até tive cobras enroladas no pescoço. Na segunda, em junho, tive o encontro com o outro. Foi uma viagem de aprendizado profundo e de uma significação enorme na minha vida. Descobri que não sei nada sobre os seres humanos e que os 53 anos vividos não tiraram em nada minha inocência e credulidade nas pessoas. A parte boa dessas descobertas foi que, além de acreditar demais nos outros, também acredito demais em mim mesma e em ambos os casos demonstrei que posso estar errada. Nem todos são o que parecem, exatamente porque não tenho habilidade alguma de avaliar as pessoas através de um contato relativamente superficial. As pessoas precisam de tempo para me mostrar como são realmente e, se por um lado me decepcionei, também tive gratas surpresas. Qualquer hora eu conto sobre o anjo de hijab que encontrei no trem entre Surabaya e Yogyakarta...

Nesta terceira viagem, o encontro está sendo comigo mesma e acho que já era mais do que tempo disso acontecer. Antes tarde do que nunca!

Pois bem, já passei pela imigração na entrada e na saída e agora estou no meu “pintu” esperando para embarcar para Denpasar, onde espero que Ketut esteja para me levar para casa, digo, para o Masa Inn. Dessa vez trago presentes para Ketut e para sua filhinha que acaba de completar um ano. Eu tenho sorte de encontrar umas figuras dessas por aí, né? Quando a loja tornar-se importadora de prata de Bali, vou contratar Ketut como meu representante (rss).

A perspectiva de dormir QUATRO noites na mesma cama parece um sonho dourado. Teve lugar onde passei dois dias e ainda me mudaram de quarto, ufa! Quero li-te-ral-men-te lagartear no sol esses quatro dias. Sol, praia, piscina e nada de compras além do tênis do Kleto e de um presente especial para o Anderson que salvou meu laptop. Claro que não vou conseguir cumprir essa promessa, mas vou ao menos tentar. Afinal, dinheiro não cresce em árvore e ainda quero viajar mais uma vez antes de voltar para minha verdadeira casa. Tô que nem o ET com o dedinho iluminando ao apontar para o Rio de Janeiro no mapa :-))

PS: Amanhã estreia aqui o filme da Julia Roberts! Será que vai estrear em Bali também? Afinal, foi filmado lá e não aqui na Malaysia... Tomara! Tomara! Tomara!


Até a volta, Siem Reap!



Foi o que eu disse ao meu onipresente Li Hor ao despedir-me dele em frente ao aeroporto. Sentadinha no salão de embarque, já faço planos de voltar. Gostei demais de tudo aqui, apesar da “facada” de 25 dólares como “taxa de despedida”. Nem no Vietnam, nem no Laos tive que pagar nada, e como meu dinheiro está no fundo da valise de mão, todo enrolado, só me safei porque aceitam cartão de crédito. Eu tinha exatamente 24 dólares na carteira e eles não topam uma barganha aqui.

A viagem toda me fez muito bem, mas a estada no Cambodia foi especial. Se foi pelo clima espiritual dos templos e pagodes ou pela cordialidade do povo eu não sei, mas que aconteceu algum clique aqui dentro, isso aconteceu. Para começar, a minha mágoa por Timor-Leste começa a esmaecer, tanto que até respondi gentilmente ao professor timorense-sem-noção que me mandou um monte de material para editar no meio das minhas férias. Se ele tivesse feito isso alguns dias antes eu, provavelmente, teria dado uma resposta bem atravessada, mas agora a paz está voltando à minha alma e consigo até rir de uma coisa como essa. Se Timor e seu povo nada aprenderam comigo e isso me causa uma enorme frustração, ao menos eu aprendi muito com eles e tenho que agradecer por essa oportunidade. Desta vez não volto pra casa com aquela coisa mal resolvida como ficou em 2006. Sei que ofereci o melhor de mim, o que é muito bom, e se não foi o bastante, paciência, não vou fazer verão mesmo estando num grupo de andorinhas. E essas “andorinhas” se esforçaram, cada uma à sua maneira, mas todos os professores brasileiros tentaram fazer um bom trabalho em Timor-Leste, justiça seja feita. Se concordo ou discordo com a forma de trabalhar de alguns, é problema meu e não sou a senhora dona da verdade. A Capes escolheu os profissionais que enviaria a Timor sem preocupar-se com a experiência ou competência de cada um, mas acabou dando sorte num ponto: todos querem ganhar pontos no currículo e empenharam-se para sair de lá com o máximo de certificados possível. Se, por conta disso, recém-graduados são orientadores de pós-graduandos e são desenvolvidos alguns projetos dos mais estapafúrdios, aí já é outra questão, mas é inegável que as “andorinhas” brasileiras trabalharam com afinco.

Outra demonstração de que a paz invadiu o meu coração, está sendo a forma como estou encarando o problema de saúde do Rafa, meu filho mais velho. Quando estava em Hanoi, recebi um e-mail dele confirmando a suspeita que pairava sobre nossas cabeças há algum tempo. Meu filho está diabético. O pai morreu de infarto fulminante aos 46 anos e o tio, também diabético, morreu aos 44. O avô paterno morreu aos 43 do mesmo mal. Estou muito preocupada, é óbvio, e o que eu mais queria agora era poder pegar meu menino no colo e passar pra mim qualquer mal que o fizesse sofrer, mas não vou poder fazer isso, então... Estou encarando tudo com o máximo de serenidade possível e vendo como uma oportunidade de iniciar uma vida nova para ele, para mim e para Felipe, meu filho caçula, que, apesar de até agora não ter tido nenhum sintoma, tem a mesma hereditariedade e, consequentemente, as mesmas chances de desenvolver a doença. A partir de agora todos lá em casa teremos mais disciplina na alimentação e vamos fazer um programa para acabar com o sedentarismo. Da Guia, Chico e Carolina inclusive! Meu Deus, e ainda faltam 79 dias...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Pra não dizer que não falei de flores




Vietnam, Laos e Cambodia, nessa ordem. O primeiro, o segundo e o terceiro.

Vietnam: “Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha/ Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha... Mas não me negava nada, e, assustada, eu disse não.”

Laos: “Indagou o meu passado e cheirou minha comida/ Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida... Mas não me entregava nada, e, assustada, eu disse não.”

Cambodia: “Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer/ Se deitou na minha cama e me chama de mulher/ Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não/ Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração.”

Pra quem diz que toda e qualquer situação da minha vida eu encaixo numa música do Chico, apesar do título do post ser o da música de Vandré, taí a descrição da minha viagem. Estou de malas prontas para deixar Siem Reap amanhã de manhã e o coração já está apertado. Tem tanta coisa para se ver, fazer, comprar... queria ficar aqui por, pelo menos, mais uma semana. Este é um lugar que vou fazer de tudo para rever! Menos mal que não volto direto para Timor. Os quatro dias em Bali vão ser o interlúdio entre esse novo amor e o “ex” do qual mal posso ouvir falar.




Pela manhã fui ao Museu da Guerra e só me lembrava do Roberto. Antes a gente tivesse vindo pra cá em abril ao invés de gastar fortunas na insossa Singapura. Depois fui conhecer uma fazenda de seda onde vi todas as etapas da produção do tecido. Pena que uma simples echarpe custe 89 dólares, mas ao menos comprei umas camisetas pra presentear amigos.







Na volta para a cidade – o museu e a fazenda ficam um pouco afastados do centro – resolvi pedir a Li Hor para me mostrar a vida das pessoas comuns, fora do eixo turístico e ele me levou num pagode onde os cambojanos fazem suas preces sem ser incomodados por turistas chatos como eu. Claro que também parei pra conhecer uma escola que, infelizmente, estava na hora do almoço e, portanto, sem aulas. Queria perguntar por que os alunos não fazem refeições na escola mesmo, mas fiquei sem graça já que estava sendo muito bem recebida, apesar de escola não ser ponto turístico, e não queria ser mais intrometida do que já estava sendo.


Voltando ao roteiro pra-gringo-ver, fui ao templo Preah Angchek, ao Palácio Real (só aos jardins) e ao memorial aos mortos nas muitas guerras que o país já atravessou. É uma coisa meio mórbida, com todos aqueles crânios parecendo admirar os jardins e o templo duma janelinha, mas cada um vela seus mortos à sua maneira, e essa é a deles. Entre um ponto turístico e outro, uma pausa no Mercado Central onde pensei ter feito boas compras... até chegar a noite e eu ir ao Mercado Noturno. Aquilo sim é lugar de pechincha!



Ainda fui ao Centro Cultural onde assisti a duas dramatizações que, claro, não entendi nada, mas as danças eram bonitas e o lugar também, apesar de ter um jeitinho “fake” que me lembrou Sentosa. Bem, é um lugar feito para mostrar as origens culturais do país e se presta a isso com perfeição. Achei legal a presença francesa aqui não ser tão forte como nos vizinhos, e não vi menção à França nesse Centro Cultural, mas devo ter passado batida e não ter reparado. Afinal, comi mais um sanduba no pão francês só para guardar o gostinho por mais 80 dias (rss).

Mais uma vez furou meu programa noturno para assistir a apsara, dança típica cambojana, que é apresentada no Canecão daqui. Tinha que ter feito reserva com antecedência e, como não fiz, me deram uma mesa tão longe do palco que achei que não valia à pena. Tenho tanta certeza que vou voltar ao país que nem esquentei a cabeça. Fui jantar num restaurante dentro do Mercado Noturno e fiz mais umas comprinhas. Agora, minha mala parece as bochechas da Chiquita quando ela decide fazer estoque de amendoins dentro da boca. Aliás, vi uns macaquinhos e me deu saudade dela, o que mostra que há ao menos um timorense que faço questão de rever.

Pois é... o lugar onde eu tinha menos expectativas foi que mais me agradou. Não tem aquela beleza esplendorosa de Bali, mas tem personalidade. Notei que os cambojanos têm a pele mais escura que quaisquer outros asiáticos e vai ver que é daí que vem essa aura de simpatia,de cordialidade na medida certa. Os cambojanos têm um quê de negão! Ainda volto para ver a apsara e, quem sabe, descobrir que tem um pouco de samba nessa dança.



segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dá-lhe Cambodia!



Olha… estou até me sentindo culpada por quase ter excluído o Cambodia da minha rota nessa viagem... O Cambodia tá dando de dez a zero no Laos! O Vietnam é o Vietnam, já expliquei bastante por aqui minhas razões para querer conhecê-lo. Já tive a surpresa de ver que Hanoi é muito mais interessante que Saigon (Ho Chi Minh City), mas o Laos ficava na minha lista de lugares místicos e, como também já falei, me deixou um pouco desapontada. Sobre o Cambodia, além das histórias das muitas guerras e do governo de Pol Pot, eu na verdade pouco sabia e só acrescentei-o no roteiro para fechar a viagem pela Indochina e também por causa do templo Angkor cuja história só vim a conhecer pela associação com Borobudur, em Yogyakarta. Aliás, estou ainda para escrever sobre minha viagem à Ilha de Java em junho, mas vou ficar devendo.





Pois bem, estou hospedada no melhor hotel até agora nessa viagem, incluindo aí o hotel em Jakarta que não estava previsto. O curioso é que é disparado o mais barato, como tudo aqui. Estou encantada com Siem Reap, gente!

O aeroporto é até luxuoso, considerando o tamanho da cidade e, não enfrentei burocracia alguma, graças ao visto tirado pela Internet. Na hora de preencher aquelas papeletas que nos dão no avião, havia um campo para o número do visto e coloquei lá. Quando cheguei ao balcão da imigração, só avisei que já tinha o visto e me liberaram em dois minutos. Enquanto os gringos todos estavam na fila preenchendo mais formulários e pagando taxas, eu já estava pegando o taxi pra vir para o Angkor PhC Hotel. Ah, e aqui eles aceitam dólares em todos os lugares, logo, além de não ter que trocar dinheiro, também não é preciso ficar fazendo mil cálculos pra avaliar os preços das coisas. O taxi custou cinco dólares, pagos no balcão de controle do aeroporto.

A cidade não enche os olhos com a beleza das construções como Luang Prabang. No caminho entre o aeroporto e o hotel, achei que parecia mais uma miniatura empobrecida de Brasília, com um hotel atrás do outro, todos naquele gênero que detesto. Fiquei até com medo de ter escolhido um hotelzão daqueles, com mil quartos distribuídos em muitos andares, mas meu hotelzinho é bem aconchegante. O rapaz da recepção, Ming, fala um Inglês impecável, considerando que é asiático, e se prontificou a me orientar nas excursões aos pontos de maior interesse turístico, como aliás, também o fizeram nas recepções dos outros hotéis, não posso me queixar. A diferença foi que, ao invés de me oferecer um pacote milionário como em Luang Prabang, me indicou o risonho Li Hor e seu tuk-tuk.

Nessa última semana só não andei em lombo de burro, mas acho que falta pouco. Em Saigon contratei um motociclista – que desapareceu depois do primeiro museu – e acabei voltando ao hotel numa carroça puxada por um velhinho artrítico que me deu tanta pena que quase me ofereci para carregá-lo eu mesma. Nas outras cidades contratei taxis, vans, ônibus e barcos. Aqui estou para cima e para baixo sentada num tuk-tuk. Li Hor é tailandês e foi monge por dez anos. Me conquistou não só pelo sorriso, mas pelo bom Inglês e pela gentileza que fez me presenteando com um bambú cheio daquele arroz grudento que eles adoram por aqui. Acho que não vou conseguir comer aquilo, mas foi legal receber essa atenção.

Comecei almoçando num restaurante bem bonitinho onde recebi meu primeiro tem-mas-acabou da viagem. No cardápio, havia um prato de lagosta que custava 6.5 dólares, mas... acabei almoçando o inevitável arroz frito. De lá, fomos para o Templo Angkor e, por ignorância, comprei entrada para só um dia (12 dólares). Vindo a Siem Reap comprem a entrada para o número de dias que pretenderem ficar na cidade, pois não dá pra ver tudo num só dia. No meu caso, meio dia.

Sabe toda aquela energia mágica e espiritual que esperava encontrar em Luang Prabang e não consegui? Pois estava aqui em Siem Reap, esperando por mim. O lugar é tão especial que nem a multidão inevitável de turistas japoneses consegue atrapalhar. Bem... em parte. Algumas das fotos que parecerão mal enquadradas devem-se às minhas tentativas de evitar os japas. Japoneses, chineses, singapurianos, sei lá. Eles estão em todos os lugares, mas não os quero no meu álbum. Aliás, não quero turista algum além de mim mesma, claro, e nesse ponto os japoneses são ótimos, sempre tiram minhas melhores fotos.

Engraçado que eu queria pegar um ângulo especial do interior do templo, já que o exterior está em obras, cheio de redes de proteção horrorosas, mas tinha um homem parado exatamente no lugar onde eu queria me posicionar. Pulei na frente dele e reparei que um grupo de japonesas estava posando para uma foto e entendi que o cara só estava esperando que elas saíssem. Rimos da situação e trocamos algumas palavras em Inglês. Uns quinze minutos depois nos encontramos novamente e o homem estava conversando com outro... em bom Português carioca! Eles trabalham na China, em alguma coisa relacionada a petróleo, me parece, e estavam aproveitando uns dias de folga para fazer o mesmo circuito que eu.

De Angkor fui para Bayon e parei em alguns outros templos menores, não sem fazer umas comprinhas, é óbvio, mas sempre de olho no relógio porque tinha que encerrar o passeio às seis da tarde quando fecham o complexo. Li Hor sugeriu que eu fosse assistir o pôr do sol de cima de uma montanha, mas quando vi a escadaria preferi voltar para o hotel. Minha intenção era descansar um pouco e ir assistir um show de danças locais só que, para fazer isso, mal teria tempo para uma chuveirada e, além do mais, tinha que recarregar a bateria da minha câmera. Bem que Sansão me aconselhou a ter uma bateria de reserva, mas agora é tarde. Se der, vejo o pôr do sol e as danças amanhã. Por hoje, o show de beleza e a aura do lugar já foram bastante e certamente me fizeram um bem enorme.









Talvez tenha sido pelas preces dos monges, talvez pela calma dos cisnes no lago... minha câmera pode estar precisando de recarga, mas minha alma já carregou a bateria o bastante para enfrentar os últimos 76 dias que serei obrigada a passar ainda em Timor.